Nos antigos mapas do Estado de São Paulo, do começo do século, notava-se uma grande parte do oeste assinalada por "terrenos inexplorados". É que a guarda avançada, na boca do chamado Sertão, era a cidade de Araraquara. E daí em diante, rumo as barrancas do Rio Paraná até o Porto Taboado na divisa de Mato Grosso, havia uma precária estrada. Era a via de penetração para o interior, pontilhada de lugarejos que deram origem as importantes cidades da atual Araraquarense . Nessa estrada, depois de Araraquara, era Matão, pequena cidade, o lugar mais perto e de maior conveniência para o comércio dos recentes municípios de Boa Vista das Pedras (Itápolis), Ibitinga, e para os poucos habitantes que se localizavam no "Fugidos". "Fugidos" foi o primeiro nome do núcleo incipiente que deu origem a cidade de BORBOREMA . Aliás, essa denominação era também a do ribeirão que banha a região e desemboca no rio Tietê, até hoje é conservado este nome. A origem desse nome, como todas as designações dos bairros rurais, sempre lembram algum acidente geográfico ou uma história interpretando, as vezes, um nome esquisito como os nossos "Pito Aceso", "Farinha Podre", "Baixada da Égua". O nome de "Fugidos" tem a seguinte história; no tempo da escravidão em nosso país, alguns escravos foragidos das fazendas das imediações de Araraquara, formaram uma espécie de quilombo nas margens desse ribeirão. Esses ex-escravos , com o desbravamento do sertão, foram dispersando-se, permanecendo, porém alguns remanescentes. De 1.900 em diante começou a fluir para cá, desbravadores do Sertão que procediam de Ribeirão Bonito, Dourado, Brotas, Bocaina e Boa Esperança. Eram posseiros que se deslocavam para estas bandas movidos pela fácil aquisição de terras virgens, seja por compra ou como posseiros, pois haviam muitas terras devolutas. Vinham também os agregados que eram trabalhadores no cultivo das roças ou criação de gado, que se instalavam com suas famílias nas propriedades de outrem . A posse das terras devolutas era facilitada ao máximo, tanto que a "Fazenda Fugidos" que constitui a maior parte do município (14.000 alqueires mais ou menos) era propriedade , inicialmente de (3) posseiros. A divisão dessa fazenda, iniciou-se em 1.902, sendo as conseqüentes confrontações e retificações das áreas subdivididas, homologadas por sentença judicial no juizado da comarca de Boa Vista das Pedras, em 1.903. Os trabalhos de agrimensura foram feitos pelo engenheiro agrimensor Dr. Vitor Garbarino , residente em Novo Horizonte. Nessa época, já havia diversos moradores que procuravam congregar-se para fundar um patrimônio, lugar de afluência dos habitantes dispersos. Os primeiros que aqui chegaram , contribuindo para a formação do novo arraial foram: José Claudino do Nascimento, Antonio Flávio Simões, José Rosa da Silva, Pedro Maximiniano, Florêncio Baldino , Nicolau Pizzolante e outros. Como os proprietários da "Fazenda Fugidos" já estavam com suas áreas delimitadas, aguardando somente a ratificação judicial , o Sr. Nicolau Pizzolante convocou todos os interessados para dar início aos trabalhos para a fundação do almejado patrimônio. Compareceram à primeira reunião os indivíduos acima mencionados que após outras subsequentes reuniões resolveram o seguinte: doação pura e simples da área de 20 alqueires de terras destinada ao perímetro urbano . Construção imediata de uma capela sob invocação de São Sebastião que, como Boa Esperança, seria o padroeiro da futura paróquia - o largo (praça) onde seria construída a capela deveria ter a área de 2 quarteirões e localizar-se "noutra banda" do córrego do sapé , isto é margem direita. Reservar também um quarteirão, em lugar a convencionar, à margem esquerda do mesmo córrego para outra futura capela em louvor a São Benedito. As dificuldades eram tantas, que, a palavra substituía todos os documentos escritos, selados e firmados de hoje. Construir a capela, o cercado para o Cemitério, reparar e abrir estradas, ligando sítios e os lugares vizinhos, e, todas as medidas práticas necessárias ao progresso do patrimônio, eram ajustadas verbalmente. A garantia da palavra do homem, no que lhe competia determinar e agir, era característica dos costumes daqueles tempos . Daí todos esses melhoramentos serem feitos por verdadeiros mutirões. Foi assim que, com a ajuda dos elementos disponíveis, foi construída a capela do patrimônio, marco inicial e de maior valor em quase todas as cidades brasileiras, desde o descobrimento. O lugar destinado à Igreja, estava ocupado por uma roça de milho, propriedade de Lourenço Costa. Este apressou a colheita e então marcou-se o largo de dois quarteirões para a futura Igreja. Essa capela foi construída com paredes de taipa, isto é ; com barrotes de coqueiro, ripas de taboca e barro calcado. Eram assim também as casas dos moradores do lugar, pois o material de construção que estava mais a mão era: mato e barro em quantidade. Em pouco tempo ficou terminada a capela e ali se realizavam então as cerimônias religiosas de "Os Fugidos". Nesses tempos o padre de Itápolis, vinha ao menos uma vez por ano, geralmente em janeiro, para batizar, confessar e fazer os acumulados casamentos. O padre aproveitava a data para festejar São Sebastião, o padroeiro, e fazer uma verdadeira missão catequética. As procissões eram muito concorridas, acompanhadas por banda de música e fogos em profusão. Ao se recolher a procissão. Uma salva de 21 tiros de bateria encerrava os festejos. Durante a procissão as moças com um pires coberto por um lenço pediam esmolas para a manutenção da Igreja. Terminava assim, a missão anual e o padre numa última reza ou num último leilão indicava os festeiros para o janeiro seguinte. A demarcação das primeiras e principais ruas do patrimônio, foi feita por Nicolau Pizzolante e o carpinteiro espanhol Francisco Urquiza. Tiveram como ponto de partida, a casa de taipa, construída recentemente, a um quarteirão da margem esquerda do córrego do sapé. Essa casa era um misto de loja e armazém; ali se faziam os debates sobre assuntos e projetos de interesse geral. Por eles foram batizadas, a rua Larga e as atuais Quintino Bocaiúva e Joaquim Martins Carvalho e suas travessas, desde o largo da capela até o largo de São Benedito. A rua Larga foi assim denominada pela sua largura maior que as outras. Nicolau Pizzolante assim a batizou porque no outro quarteirão, quase em frente de sua própria casa, deveria ser construída a morada de Saturnino Cunha. O Satú, era violeiro e gostava de reunir nas noites de chuva, alguns companheiros para cantorias inspiradas e estimuladas por alguns tragos. Não raras vezes, entretanto, essas reuniões resultavam em barulhentos sapateados de cateretês. Daí construir-se a nova casa mais longe das outras, deixando a largura de 30 metros mais ou menos, para a rua, e não perturbando assim, o sono da vizinhança. Esse traçado das ruas foi retificado pelo Dr. Garbarino e mais tarde completado, abrangendo todo o terreno doado ao patrimônio, pelo agrimensor Augusto Schikanschy. Nos primeiros tempos dos "Fugidos" as principais lavouras eram de produtos necessários a manutenção dos habitantes. As sobras eram vendidas para obter numerário com o qual se comprava sal e tecidos. Plantava-se arroz, feijão, milho fumo. Criavam-se porcos e bois. O principal artigo para venda era o arroz em casca. Em 1.904 instalou-se a primeira máquina para benefício do arroz e este passou a ser vendido, já beneficiado. Instalou-se também um moinho para fazer fubá. Com estas instalações o pilão e o monjolo passaram a sofrer concorrência. As terras novas das derrubadas, produziam dez carros de milho por alqueire. Isso contribuía para a fácil engorda de porcos. Plantava-se uma grande roça de milho entremeada com a plantação de abóboras. Quando o milho estava para ser colhido e as abóboras em plena produção, soltava-se a porcada. Após três meses mais ou menos os animais estavam em condições de serem vendidos. Eram então transportados a pé até Matão, via Ibitinga e São João "Tabatinga", levando de 8 a 10 dias de viagem. Negociada, a partida de porcos era embarcada para Campinas e São Paulo. O milho, além de seu valor no trato dos porcos, era ainda transformado em farinha, produto de relevante consumo. Era fabricada a farinha em instalações anexas aos monjolos. O fumo de corda era vendido em rolos encapados com palha de milho. Chegou a ter fama pela sua qualidade. Os fumeiros mais afamados eram dos irmãos: Manoel, Antônio e José Germano. As propriedades agrícolas contavam além de monjolo, com o engenho de cana. Fabricava-se o açúcar mascavo e também o mais claro, além de rapadura em tijolos. O café, contou como primeiros plantadores, o Major José Claudino do Nascimento e Antônio José Ramalho, proprietário no bairro do Sertãozinho. A lavoura do Major Claudino nada ficava a dever às atuais e afamadas lavouras do Paraná. Além desse, outros foram os pioneiros como lavradores e criadores: Manoel Rodrigues Carneiro, Olimpio Mariano Simões, Gabriel Maria da Veiga, David Foster, Jacynto Antunes da Silva, Messias Antunes, Maximiniano Alves de Moraes, Elizardo Alves Gonçalves, Canuto Teixeira, Luiz Prudenciano de Souza e José Jacynto do Prado. O movimento embarque e desembarque de mercadorias do "Fugidos" até 1.912 era feita em Matão. Com a chegada, nesse ano dos trilhos da Estrada de Ferro do Dourado em Itápolis, todo comércio foi desviado para essas cidades. A Douradense , "caixa de fósforos", como era chamada por ser de bitola de 60 cm., porém no seu início, tão somente, partindo de Dourado até Ribeirão Bonito, onde se encontrava com a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Apesar de tudo, concorreu muito para o progresso das cidades que atingiu e para as vizinhas e tributárias como Borborema e Novo Horizonte. Logo mais, a Douradense, para fazer tráfego mútuo com a cia.Paulista, passou também a adotar a bitola de 1.00 m, quando então passou a se estender, partindo de Ribeirão Bonito em direção a Ibitinga, passando por Sampaio Vidal, Trabijú, Boa Esperança do Sul, Gavião Peixoto e Tabatinga. Ainda constavam mais algumas estações intermediárias no trecho, como Java, Ponte Alta, Nova Europa. Os proprietários de terras da margem esquerda do Tietê zona noroeste já contando com produção agrícola apreciável necessitavam comunicação com "Fugidos". Isso se concretizou com a abertura de uma estrada rudimentar podemos dizer, quase uma picada. Essa via, atravessava matas virgens e alcançava o povoado do "Batalha" hoje Reginópolis. Nesse lugar havia uma balsa para a travessia do rio. Foi posta a funcionar com muita dificuldade, pois a maleita impedia o andamento e a continuidade dos serviços. Por esse tempo, havia nas margens do Tietê cerrados, bosques de jabuticabeiras nativas. Todos os anos os moradores do "Fugidos" promoviam uma verdadeira corrida para a colheita das frutas que eram de excelente qualidade. Com o devassar das matas, esses "pomares gratuitos" foram destruídos para dar lugar as lavouras e pastagens. Mais tarde, foi feita também a ligação do "Fugidos" com "Campo Triste" atual Itajobi. Aproveitando-se os caminhos que serviam aos proprietários agrícolas e que passavam pelos bairros do Fugidinho, Queimada e Palmeiras, rasgou-se a estrada de rodagem que fez a respectiva ligação. Assim ficou "Fugidos" ligado com seus vizinhos, para o intercâmbio comercial. Estava organizado o patrimônio. Tinha sua capela, ruas e estradas. Novos pioneiros chegaram, com a variedade de suas profissões. Para ser proprietário de terras, na vila em formação era fácil; quem quisesse poderia tomar posse de uma ou mais datas de dezessete metros e sessenta centímetros por quarenta e quatro metros, com a única condição, construir. A terra do patrimônio, era do santo São Sebastião. Os que preferiam labutar na lavoura podiam também adquirir terras por preço que oscilava por volta de vinte mil réis o alqueire. O pagamento podia ser em moeda corrente, porém eram muito comuns as trocas em que entravam animais de sela, carros de bois, monjolos e engenhos. Com terra pagavam-se também débitos atrasados, para o que se desmembravam uns tantos alqueires. De uma feita, foi rejeitada a barganha de um animal de sela por cinco alqueires de terra. A vila crescia, afluiam os comerciantes, Ernesto Volponi, Felipe Giulano, João Laporta, Gaetano Marotta, Carlos Lippe, José Leones da Silva e Joaquim de Castro Pereira. O Sr. Pedro Carvalho de Andrade montou uma farmácia. Os medicamentos na maioria eram produtos homeopáticos, muito em voga na época. Os primeiros comerciantes sírios foram aparecendo: Nagib e João Adib, Nagib e Elias Audi e mais tarde Cipriano e Jorge Sahão. Operários especializados também aportavam: Celestino, Adão e José Bento Trigo, mecânicos Benigno e Generoso Trigo, os primeiros construtores de casas de tijolos, Domingos Siriani, funileiro, Vitalino José de Souza, carpinteiro e muitos outros. A primeira escola de classes mistas , para alfabetização no "Fugidos" foi instalada no ano de 1.907, por portaria da intendência Municipal de Boas Vista das Pedras. Foi nomeada para o cargo a professora Dna. MARIA JOVITA LEME DE FREITAS. Nessa escola havia, talvez, como regulamento a célebre palmatória, mais pela sua ação de presença do que como argumento pedagógico. Influía para o imediato e bom resultado: na decoração da tabuada e na aprendizagem das quatro operações, para os alunos mais rebeldes. Mas com Dna. Mariquinhas a alfabetização foi sempre conseguida com desvelo e carinho. As classes renovavam todos os anos até 1.920. Foi depois criada outra escola, depois Escolas Reunidas, e finalmente o Grupo Escolar. O encerramento do ano letivo era às vezes comemorado com uma festinha que tinha por lugar um paliçado coberto de sapé. Era construído defronte à escola. Os alunos maiores o arrumavam com capricho. A festa contava com os indispensáveis recitatívos. Havia muita alegria e maior algazarra. Observação do historiador: Rememorando a pessoa de D. Mariquinhas, a professora que exerceu o magistério com rara dedicação, é de se lamentar que seu nome não tenha sido lembrado para patrocinar alguma casa de ensino primário do Município. Nisso não vai naturalmente, nenhum desvalor aos outros nomes tradicionais. Essa homenagem seria o reconhecimento devido aos inestimáveis serviços que prestou como professora da primeira escola de nosso município. Além disso, com seu esposo, Urbano de Freitas, muito contribuiu para o desenvolvimento do patrimônio, nos seus difíceis primeiros anos. De "Fugidos" a "Borborema" Em 1.905, foi pleiteada e conseguida a criação do distrito policial. Ocupou o cargo de subdelegado, Joaquim Vieira de Camargo. O distrito policial de "Fugidos" passou a denominar-se BORBOREMA, por força da lei estadual n.º 1.196. Foi promulgada a 29 de dezembro de 1.909 e criou o Distrito de Paz do mesmo nome que obteve os foros de vila. Era presidente do Estado de São Paulo, o Dr. Manoel Joaquim de Albuquerque Lins. Advogou a causa o Dr. Melo Peixoto por interferência de Nicolau Pizzolante. Para o cargo de escrivão de paz e tabelião, foi nomeado João Batista Leme que exercia o cargo de secretário da prefeitura de Boa Vista das Pedras. Pedro Carvalho de Andrade ocupou o cargo de juiz de paz. E eram ambos, elementos de destaque, a quem Borborema muito deve pelos seus trabalhos e contribuições, em todas as iniciativas visando os interesses do distrito e emancipação do município. Borborema é nome de origem Tupi. Essa palavra segundo consultas no glossário em língua Tupi, é formada de "Porpora-Eyma" que traduzida literalmente ao português quer dizer: sem-gente. Portanto, um lugar ermo, despovoado, deserto. Essa denominação foi sugerida pelo Instituto Histórico e Geográfico do Estado de São Paulo; interpretando as características históricas, na formação do patrimônio, pois o lugar era uma simples referência dos viajantes do sertão desabitado. Foi aceita pelos seus moradores, representados por Nicolau Pizzolante. É aliás, uma palavra sugestiva e muito bonita. No período de 16 anos em que Borborema foi distrito de paz, pertencente à Boa Vista das Pedras o subdelegado era nomeado pela delegacia de policia. O prefeito nomeava o sub-prefeito com a aprovação da Câmara daquele município. As eleições como em todo o Brasil, eram feitas "a bico de pena". Os eleitores registrados votavam a descoberto perante a mesa receptora. Curioso é que havia um só partido político:- O Republicano Paulista. Nas eleições estaduais ou municipais os adversários eram candidatos desse mesmo partido. A disputa era entre os chefes políticos locais isto é, situação e oposição. A facção que tivesse o chefe mais ousado, mais "político" para fazer votar até os mortos e ausentes, que constavam das listas eleitorais vencia o pleito. Tinham a garantia dos Capangas, armados até com carabinas. Todos os eleitores e correligionários recebiam o prêmio de sua colaboração: calçados (pares de sapatões), chapéus, roupas novas e possivelmente, empregos. Para comemorar a vitória havia almoço, jantares nos hotéis e pensões além de churrascos ao ar livre. Por muitos anos o representante de nossa zona na Câmara Estadual foi o deputado Trajano Machado. Mais tarde foi substituído por Plínio Carvalho de Araraquara. O vereador representante na Câmara Municipal de Itápolis, sempre foi Sebastião Claudino do Nascimento. Os subdelegados distritais, entre outros foram: Lino de Almeida, Joaquim Saldanha, Elias Ramalho, Manoel Silveira Bueno. Dentre eles, destacou-se nesse cargo, Elias Bueno, conhecido por Elias Ramalho, por sua energia, coragem e incansável atividade para conter os valentões e desordeiros que por aqui campeavam. Os costumes exigiam aos "mocinhos" desde adolescentes, para "ser homem", a exibição, à cinta, uma faquinha de ponta ou uma garrucha de dois canos para garanti-los de qualquer eventualidade. Esse subdelegado também notabilizou-se por não dar tréguas aos ladrões de cavalos, verdadeiro flagelo para a população rural, que nas suas proezas, consideravam-se salvos das garras da polícia, atravessando para o outro lado do Rio Tietê, na zona noroeste, mais sertão do que estas bandas, naquele tempo. A liberdade relativa, desses elementos perturbadores da ordem, em suas correrias de tempos em tempos, era ameaçada pelas esquadras volantes de soldados da Força Pública do Estado. Organizados em patrulhas montadas (animais requisitados por onde passavam), policiavam o vasto sertão de São Paulo, para repressão do banditismo, em toda sua forma e prisão e desmantelamento de verdadeiras quadrilhas organizadas para roubo de animais. Passaram por Borborema no exercício dessas funções o célebre tenente "Galinha" e o tenente "Galvão". Os serviços públicos do distrito dependiam das verbas do orçamento municipal de Itápolis. Consistiam no que houvesse necessidade urgente, como conserto de pontes , estradas, roçadas nas ruas uma vez por ano, porque a guaxuma e o fedegoso tomavam conta da via pública na temporada das águas. Entremeados de anos, aparecia algum serviço público em forma de melhoramento: telefone, iluminação pública (lampiões), correio, luz e força elétrica, estrada para automóveis, etc. Já em 1.913 havia em Borborema telefone com aparelhos residenciais em número de vinte e tantos. A companhia Bragantina de Telefones era a concessionária desse serviço, com linha para Ibitinga e depois para Itápolis. Apesar da imperfeição dos aparelhos transmissores e receptores havia esse meio de comunicação que foi abruptamente suprimido em 1.925. Por muito tempo não houve ligação telefônica, nem com as cidades vizinhas. Muito mais tarde em 1.950, conseguiu-se um centro telefônico para servir toda a população, após muito empenho e negociações políticas. Grande novidade foi a colocação nas principais ruas da vila, dos lampiões a gás acetileno. Foram instalados em postes sextavados de madeira, com 2,5metros de altura, acondicionados numa caixa poliédrica de vidro. Tinha o poste, à certa altura, dois braços transversais para o apoio da escada, usada pelo encarregado em acender lampiões. Era, ele, funcionário público e, todas as tardes acendia os lampiões, removendo o combustível esgotado e renovando a carga de carbureto de cálcio. Os lampiões foram plantados nas esquinas e no meio dos quarteirões nas ruas centrais e também em algum beco, onde morasse um político influente. Foi um grande melhoramento! Nas noites escuras servia de guia, como faróis aos retardatários e também inspiravam os seresteiros em suas canções, acompanhadas do inseparável violão. Aqui também havia serenatas, naquele tempo. Lá por 1.914, a vida pasmada e rotineira do arraial, por isso mesmo, monótona, necessitava de um passatempo. Sob a orientação do maestro, Silvino Pontes, organizou-se uma comissão para formar uma banda de música. Iniciou-se o aprendizado teórico das fusas e semifusas. Os candidatos convocados, em parte eram da zona rural. Após os trabalhos na lavoura, vinham à vila à noite para os ensaios. Adquirindo o instrumental, em pouco tempo a banda se exibia em passeatas pelas ruas e em concertos no coreto do largo da Igreja. Depois veio Alfredo Queirós, que deu melhor organização à corporação. O apogeu foi atingido sob a regência de Francisco de Oliveira, o popular "Chico Guaiaca", padeiro profissional e músico nas horas vagas. Com grande número de músicos, aconteceu o imprevisto: houve uma trama de que resultou a formação de outra banda, regida por Horácio de tal, maestro com o apoio de "Pedrão". Pedro Francisco, expoente dos músicos aqui formados, que depois alcançou o posto de 1º pistonista na banda da Força Pública do Estado. Começou a rivalidade. Quando se fazia convocação dos músicos de uma banda, a outra logo se alertava para a mesma passeata. Em formação marcial, ambas enquadradas por acompanhantes, para "sustentar a nota" num possível entrevero, percorriam o mesmo itinerário. A melhor exibição seria daquela que "encobrisse" a outra no dobrado de sua preferência. As bandas além das retretas, eram o ponto alto nas festas de Igreja, acompanhando a procissão. Os troles eram veículos de 4 rodas e 2 assentos, isto é; a boléia na frente para o condutor e o banco de trás para os passageiros. Levavam até 3 pessoas, sendo relativamente leves, próprios para nossas estradas, cheias de buracos e com largos trechos em erosão. Foram esses veículos o meio de transporte de passageiros de que dispunha Borborema há muitos anos. Eram puxados por duas parelhas de animais, eram enfeitadas com guizos encastoados, que chocalhavam na andadura, produzindo o compasso tlin...tlin...tlin..., interminável, sonolento. Esmorecia e cansava o passageiro, às vezes mulheres e crianças, no final de 4 ou 5 horas de caminhada até Ibitinga ou Itápolis. De longe ouvia-se a percebia-se o trole que vinha pela estrada. Ao entrar na vila pelas ruas onde passava, atraia a atenção dos moradores, curiosos por saber e contar notícias ao viajante que chegava. Os troleiros, com base de operação em Ibitinga dispunham de 2 a 3 troles cada para atender aos interessados. Cobravam-se RS 25$000 (vinte e cinco mil réis) por viagem daqui à Ibitinga, quando chamados pelo telefone. Os mais afreguesados, que serviam Borborema, eram: Dino Rossi Gali, Estanqueiro, "Minhoca" e Pedro Franco Silveira. Esses veículos de grande utilidade no transporte de passageiros, no sertão, reinaram aqui uns 20 anos, até o início da era do automóvel. Na data de 21 de março comemora-se o 39º aniversário da instalação do município de Borborema. Representa a emancipação política e administrativa, adquirindo a sede e os foros da cidade. Histórico: A formação de Borborema, data do início do século, com a denominação de Fugidos. Suas terras pertenciam ao distrito de Boa Vista das Pedras, cuja paróquia tinha por limite o Ribeirão dos Fugidos. Da margem direita para lá, as terras pertenciam a Novo Horizonte. O distrito de paz criado em 1.909 sob o nome de Borborema, foi elevado à categoria de município pela lei nº 2089 de 19 de Dezembro de 1.925, desmembrando do território de Itápolis a cuja comarca ficou pertencendo. A sua instalação oficial deu-se no dia 21 de março de 1.926. Em 1.938 o município passou para a comarca de Ibitinga, sob cuja jurisdição pertenceu até 1.964, quando voltou para o termo de comarca de Itápolis. Conta o município com o distrito policial de Vila Orestina. Considera-se fundador do lugar, Nicolau Pizzolante, por ter sido o organizador do patrimônio, seja na construção da capela, demarcação das ruas, aberturas de estradas, construção de um porto no Rio Tietê, como por seus empenho na criação do distrito batizado "Borborema", vinda da estrada de ferro.. Isso além das suas atividades particulares que se refletiam no progresso local: instalação da 1ª casa comercial; da 1ª máquina de benefício de arroz e de café; 1ª serraria, plantação de café, etc. O primeiro prefeito eleito do município foi Flávio Antonio Simões. A 1ª Câmara era constituída por: Pedro Carvalho de Andrade, presidente; José Laporta, Dr. Lauro Torres de Rezende, Dante Cordiglione e Pedro Claudino, vereadores. Em 1.919, foi construída a estrada de automóveis de Itápolis a Borborema. Prolongou-se depois até Novo Horizonte. Foi o reflexo da política do então presidente do Estado, Sr. Washington Luiz Pereira de Souza, que tinha por lema:"governar é abrir estradas". Nesse governo, depois da ligação de São Paulo com Santos e Rio de Janeiro, as estradas de automóveis se expandiram pelo interior afora. Inaugurada em meados do ano, com festas, presença de autoridades constituídas, causou curiosidade a primeira "jardineira" que aqui apareceu. Tinha até um nome "Piave". Era seu proprietário "Carmeluccio" que explorou essa linha por muitos anos. A jardineira veio a substituir o trole . Mas não pense nos modernos ônibus que hoje transitam pelas estradas asfaltadas de todo o Estado. Era veículo de comodidade relativa, pois a carroceria era cópia dos antigos bondes da Capital com seus laterais abertos. Foi mais um passo para o progresso; encurtaram-se as distâncias. Portanto, os "Ford de Bigodes", os "pé de bode", foram os pioneiros nas comunicações rodoviárias entre os núcleos do nosso interior. Enfrentavam em qualquer tempo, quaisquer estradas, sem estabilidade pelo recente devassamento da mata. O correio de Borborema vinha de Itápolis, a correspondência era transportada por estafetas que viajam a cavalo 2 a 3 vezes por semana, quaisquer fossem as condições de tempo. Às vezes saíam pela madrugada para voltar tarde da noite. Isso mediante o salário de cento e oitenta mil réis, mensais. Desde 1.912, diversas petições foram encaminhadas ao Departamento de Correios e Telégrafos para a criação de uma agência postal, porém não lograram aprovação. Em 1.920, veio a nomeação oficial de Dna. Henriqueta Carvalho para o cargo de agente. Mas até hoje não se obteve o prédio próprio para esse serviço postal. O estafeta também se encarregava de encomendas para os moradores, como remédios, pagamento de impostos, recados políticos. Era o agente oficial de ligação do distrito com o município comarca. O serviço de vez em quando falhava , pelo mau estado das estradas, devido as intempéries. As 10 léguas a cavalo no mesmo dia constituíam proeza que desafiava a boa vontade e perseverança no ofício. Os estafetas foram funcionários dedicados que contribuíram com sua pedra para o progresso, estabelecendo a comunicação do sertão com os centros maiores, mais civilizados, por via postal. Dentre muitos desses servidores abnegados, lembram-se os nomes seguintes:- Otávio Carvalho, Pedro Rodrigues, J. Braz, Francisco Lopes de Oliveira, Lucas Marota, Pedro Flávio Simões. Nas entradas pelo sertão de S.Paulo o pioneiro devia ter a fibra de um bravo. O indivíduo só contava consigo próprio. O meio era de todo hostil e apresentava obstáculos de toda natureza. As distâncias entre os povoados eram longas; havia falta de comunicações e, sobretudo, falta de assistência médica. O inimigo nº 1 era a MALEITA. Borborema, cercada de rios Tietê, Porcos, Fugidos, cujas margens eram focos de proliferação dos mosquitos agentes transmissores, muito tributo pagou a maleita. Não se acreditava fôsse o pernilongo, o anófelis, a causa principal da existência da moléstia. O mau cheiro das matérias orgânicas em decomposição, como o caldo de feijão no côcho dos porcos; as águas servidas na porta da cozinha e os brejos nas vazantes seriam responsáveis. Tudo porém errado. O costume de construírem-se casas nas beiras dos córregos, contribuía, para o aumento dos maleitosos. Quem se aventurasse a cultivar nas proximidades dos rios, nas terras mais férteis que nos espigões, não aguentava a maleita. Tinha que fugir, abandonando roças e benfeitorias. Havia casos, de caírem doentes ao mesmo tempo, todas as pessoas de uma mesma família . Não sobrava alguém para dar aos acamados, sequer uma caneca d'água, que os aliviasse dos fortes e terríveis acessos de febre e tremedeira. A espécie de maleita mais temida, a sezão, terçã maligna, não raro liquidava com o doente, principalmente no caso de reincidência, quando o fígado, deixava-o empalamado com inflação crônica. A profilaxia, o combate preventivo como se faz hoje com a dedetização das casas e focos de pernilongos não existia."sulfato" como eram chamados todos os sais dequinina, era o único meio de tratamento eficaz dos doentes de maleita. A dose era a seguinte: um cabo de colher no café, em jejum ou 3 vezes ao dia. O uso exagerado, deixou muita gente surda. Por muito tempo a maleita foi uma moléstia endêmica permanente na região. Havia a safra de maleita para as farmácias. Em determinado período do ano, vendiam-se, quase somente medicamentos anti-maláricos. Com as derrubadas das matas, a plantação do café, algodão, foram aproveitadas as melhores terras. Então a drenagem natural, acabou com a indesejável maleita. O café, produto agrícola de maior expressão econômica na balança comercial do país, teve sua cultura desenvolvida inicialmente no Vale do Paraíba. Deslocando-se continuamente para o Oeste, a procura de terras novas e férteis teve sucessivamente zonas de maiores plantios e produção: Campinas e Ribeirão Preto. Ganhou depois a Noroeste e a alta Paulista e finalmente o Paraná que em 1.933 produzia somente 500.000 sacos beneficiados. Em Borborema começou a se desenvolver o cultivo dessa rubiácea de 1.916 em diante. Por esse tempo tinha dois terços do seu território em matas. A plantação se fazia visando o maior número de cafeeiros. Não havia sementes selecionadas, não se defendia o terreno contra a erosão, adubação mineral era desconhecida. Aproveitavam-se culturas intercaladas de milho, arroz e feijão. Essas culturas esgotavam a terra, contribuindo para a produção média relativamente baixa de 30 sacos por mil pés. O município de Borborema chegou a possuir 6 milhões de pés de café em 1.931. Os maiores municípios cafeeiros do Estado eram; Pirajú com 317 milhões e Ribeirão Preto com 33 milhões, São Paulo ao todo possuía 1 bilhão e 500 milhões de cafeeiros. Não era raro em muitos municípios, fazendeiros possuidores de 1 milhão de pés de café. Foi o tempo da "vaca gorda" para os cafeicultores. Os maiores proprietários de café no município em 1.931 eram: Antonio Ramos com 250.000 pés, Miguel G. Rodrigues, Rachid Rayes com 150.000, Amadeo Zuliani 120.000, Antonio Martins de Carvalho e José Gabriel Curi 110.000, Felício Biasotto, Francisco Lopes da Silva e Nicolau Pizolante, 80.000. Há fatos vividos e constatados da nossa história, que não nos recomendam muito, como povo civilizado. São marcos das diferentes etapas da nossa evolução social. Muitas vezes se presenciava, o espetáculo deprimente e doloroso do desfile, pelas ruas da vila, de uma caravana composta de homens, mulheres, até crianças doentes do mal de Lázaro. Esmolavam de casa em casa, depois arranchavam-se em barracas, como ciganos, a saída da vila, descansando, para prosseguir na jornada. Eram recebidos pelos moradores com muita precaução e mesmo pavor, pelo possível contágio. Para esses doentes, geralmente lavradores rurais, já em estado avançado da moléstia, que se denunciava pela profunda alteração fisionômica, fazia-se a entrega de um cavalo, adquirido por um abaixo assinado. Abandonando casa, família, querença, viajavam numa peregrinação sem destino, esmolando de vila em vila até onde e quando o mal horrível o permitisse. Esgotadas as forças, sucumbiam longe, abandonados por tudo e por todos. Aqui em nossa região, esses doentes, perambulavam até 1.930 sempre em número crescente. Orçavam só no Estado de São Paulo em mais ou menos 10.000. O governo estadual então resolveu tomar medidas concretas, para acabar com essa chaga social. Construíram-se os asilos-colônias em diferentes zonas do estado: Aimorés em Bauru; Cocais na Mogiana; Pirantingui na Sorocabana; Santo Ângelo próximo da Capital. Assim foram internados obrigatóriamente, todos os doentes de lepra do estado. Nos estudos folclóricos de determinadas regiões, certos usos e costumes são rituais mistos de religião e crendice. Atingem as raias do ridículo, quando não, apresentam espetáculos piedosos e grotescos ao mesmo tempo. Na "Bass Itália", Calábria, Basilicata, antigamente, quando alguém de uma família morria, vinham as carpideiras, velhas amigas da casa. As mulheres, parentes mais chegadas do morto, esposas, mães, irmãs expressavam sua dor bailando ao redor do morto querido, chorando e cantando, lastimando-se e arrepelando-se ao mesmo tempo. Aqui na zona rural, acontecia casos variantes desses costumes. A noite, para "guardar" o defunto, apareciam vizinhos e amigos. As tantas começavam as rezas. Seguia-se um café depois uma pinga, isso com intervalo até o amanhecer. Para o enterro, não era prático o uso de caixão, mesmo por não haver quem o fizesse. A rede era de uso corrente. Um lençol ou coberta com que se embrulhava o cadáver amarrando tudo com cipó ou embira numa vara roliça, comprida e resistente. O cortejo ao sair da casa do morto não tinha muita gente. Mas ia engordando durante o caminho. Era composto de cavaleiros com longas esporas. Nos pés descalços. Iam de calças arregaçadas e em mangas de camisa, porque labutando na lavoura à beira da estrada, atendiam ao apelo dos que acompanhavam, gritando de vez em vez ; "as almas", "as almas". Na longa caminhada cansados pela noite mal dormida, ou pelo trabalho da enxada, parecia-lhes excessivo o peso do morto. Diziam-se que era porque tinha muitos pecados. Então, quebravam alguns galhos do mato e o malhavam simbolicamente, para diminuir o peso. E se chegando à vila num marche-marche, acelerado, destacava-se um cavaleiro, galopando à frente. Ia tocar o sino da capela para que se constatasse o credo religioso do morto. Depois do enterro, na última venda da saída, bebia-se, descansava-se um pouco, voltando todos para suas casas tranquilos pelo dever cumprido. Tudo isso são formas e expressões de solidariedade humana. Nós já tivemos a nossa revoluçãozinha aqui em Borborema. Revolução branca, sem derramamento de sangue. Um tanto quixotesca mais, provou que no interesse coletivo somos unidos. Não foi uma arremetida contra moinhos de vento, com lanças em riste. Mas com serrotes e machados, contra postes da linha telefônica, plantados nas ruas da vila. Em 1.925, estava pronta a usina hidro-elétrica do Ribeirão dos Porcos. A concessão Gataz e Maluf, deveria abastecer com energia elétrica, diversos municípios: Catanduva, Novo Horizonte, Borborema, Urupês e Itajobi. Em Borborema não era possível a instalação da linha condutora, porque as ruas estavam ocupadas pelos postes da telefônica em altura inconveniente, provocaria interferência, curto-circuitos, indução. A Cia Bragantina não se interessava por nenhum acordo. Emperrou a política, nada se conseguia. Entrou em ação a burocracia, petições, requerimentos, justificações tudo em vão. Os ânimos foram se exaltando, comentários de esquina, ameaças e a Cia não dava ouvidos. Seus serviços, não demonstravam consideração aos reclamentes. Postes caídos, linhas interrompidas, comunicação telefônica precária. Havia impaciência pela protelação do melhoramento tanto desejado. Os maiores políticos, autoridades, insuflavam o povo, para que decidisse esse impasse com uma medida drástica. Dentre os entusiastas da causa em jogo destacavam-se; Hugo Lippi, farmaceutico e o Dr. Ribeiro da Mata, médico integrado em nosso meio, residindo aqui mesmo antes do Dr. Lauro Torres de Rezende. Chegou porém a última notícia; estaca zero. Alguns elementos mais decididos tomavam a iniciativa de começar a derrubada dos postes. José Fagá (o nosso Bepão), Francisco Laporta, borboremense dos quatro costados, Chico Alexandre, valentão desabusado e Joaquim Saldanha, que foi estafeta, sub-delegado, sub-prefeito. Soltaram rojões, foi o sinal de alarme, toque de reunir para o avanço final. Todo mundo na rua. A travessia foi geral. Uns serravam os postes. Outros desmontavam os fios que enrolados, eram depositados no centro telefônico. No final da refrega os postes jaziam inermes, encostados à beira das cercas não restando um único de pé. Abriu-se inquérito; processos contra o povo, o advogado de defesa foi o Dr. Silvado. Ninguém viu, ninguém tomou parte na arruaça. Não havia testemunhas e o processo foi arquivado. Resultado: ganhamos força e luz elétrica. Mas ficamos sem telefone pelo espaço de 25 anos. Em 1.933 o Brasil produziu 30 milhões de sacos de café beneficiado, SãoPaulo, 20 milhões, foi o máximo. Dessa data em diante, começou a decadência dos números nas estatísticas. Foi a fase em que tinhamos um excesso sobre a exportação de 18 milhões num ano agrícola. A crise do café começou em 1.930. Em 1.965, pagava-se aqui em Borborema, por um saco de café em côco 75 mil réis. Com a queda dos preços, vendeu-se café a 6 mil réis o saco em 1.930. O regulamento de embarque do café benificiado parta exportação, exigia a quota do sacrifício de 40%, isto é; venda compulsória ao D.N.C. (Departamento Nacional do Café), ao preço das despesas. Foram construídos grandes armazéns reguladores, denominados "cemitérios" (porque o café da quota era destinado à queima). Singularidade extraordinária: o imposto municipal em todo Estado de 2 mil réis por mil pés, era pago pelos cafeicultores. O estímulo da produção às avessas. Pagava-se para plantar. O plantio de nossas lavouras foi então proibido. Agora paga-se para cortar o café das lavouras improdutivas, visando selecioná-las. Dizem que a época do café está para findar. O Brasil, país agrícola, transforma-se em país industrial. Mas ainda é o café quem comanda 60% de nossa exportação. Dentre os plantadores de café, empreiteiros e sitiantes, cujos nomes devem figurar num quadro de honra, porque foram os que com seu trabalho, assentaram as bases da riqueza e consequentemente do progresso de Borborema, são lembrados os seguintes: David Gentile, Alexandre Mozetto, Felício Biazotto, José Viu Arinos, André Mateus, Joaquim Lloregatt, Felipe Guizarro, Pedro Serviente, João Quessada Solis, Pedro Palma, Gregório, Benjamin e João Gonçalves, Pedro e Luiz Magoso, Henrique Norbiato, Antonio e Pedro Zanete, Luiz, Batista e Eutanásio De Rizzo, Francisco e Olímpio Flávio, Amadeo e Santo Veronesi, Eugenio e Fausto Coleto, João e Mansueto Penitente, Sebastião Prudenciano de Sousa, Hilário Hortense, José Esteves, Pedro Pegorin, Vitório e João Pagani, Frederico Rodrigues, Angelo Fagá, Carlos Green, João, Manoel e Felix Martins Ribeiro, Antonio (sobrinho) e Joaquim (primo) Martins de Carvalho. No século XVII paulistas (bandeirantes), movidos pelo espírito de aventura e ambição das descobertas de ouro e pedras preciosas, internavam-se em Minas Gerais, fundando povoados e vilas. Sabará, Ouro Fino, Ouro Preto, Diamantina, Montes Claros, São João Del Rey, foram assim nascidas. Até onde foi delimitada a capital Belo Horizonte, existiu Curral d'Rei fundado por paulistas. No fim do século passado e nas primeiras décadas do atual com as levas de imigrantes europeus, que vieram substituir o braço escravo na formação de lavouras, brasileiros de outros estados principalmente de mineiros, provocaram o reflexo dessa migração para o Estado de São Paulo. Há em São Paulo, numerosas cidades começadas por mineiros, dentre elas, Mineiros do Tietê (perto de Jaú), confirma pela denominação e sua procedência. Admite-se hoje perto de um milhão de mineiros no Estado. Para as diversas zonas cafeeiras os mineiros vinham atraídos pela fertilidade das terras e facilidade do trato na lavoura, pois a conformação ondulada do terreno, controlava sobretudo com as terras montanhosas de Minas. Borborema obteve a contribuição de mineiros para seu desenvolvimento. De 1.917 em diante, vieram para cá muitos deles procedentes das imediações de Juiz de Fora, caracterizados por sua índole religiosa e amor ao trabalho. Um dos primeiros aqui chegados foi José Guedes, empreiteiro a quem coube o papel de ponta de lança nessa tomada de posição. Devido a propaganda favorável do lugar, formou-se uma corrente migratória com o chamamento de parentes, amigos e conhecidos. Depois de algum tempo veio o verdadeiro chefe do clã, Antonio Martins Carvalho, que na abertura de sua fazenda estabeleceu como que um consulado, promovendo a vinda de outros mineiros com a garantia de trabalho, assistência financeira e compra de terras. Até 1.923 destacaram-se os mineiros (diversos deles, portugueses ou italianos de nascimento, mas considerados mineiros pela procedência); José Morão (comerciante), José e Júlio de Martin, Pedro, João e Antonio Lorenzeto, Lourenço Stefan, Antonio Alves Teixeira, Manoel Martins Ribeiro e outros mais. Troncos de numerosas famílias cujos descendentes são borboremenses autênticos. Aliás pela sua projeção na política local, dois mineiros exerceram o cargo de prefeito municipal: Joaquim Martins Carvalho e José Augusto Perotta. Os japoneses, apesar de seus costumes conservadores e tradicionais, é um elemento que aos poucos vai se diluindo nesse cadinho de caldeamento de raças que é o Brasil. Altamente qualificado nos diferentes ramos de atividade, é um exemplo, é um modelo por sua modéstia, capacidade, principalmente na lavoura. Despontaram neste município de 1.920 em diante. Como agricultores dedicavam-se no começo, a cultura do arroz, uma de suas especialidades. Dificilmente se viu um japonês interessar-se pelo trato do café. Aqui como havia terras em abundância, aproveitava-se somente a nata a parte superficial, fértil, que a natureza nos dá, depois das derrubadas das matas. Isso por alguns anos. Na primeira fase de depauperamento do solo pelas queimadas sucessivas invariavelmente aparecia o sapé. Essa "praga" nas lavouras de café e roças, não seria eliminada a não ser em carpinas de "três sexta-feiras", consecutivas. O sistema radicular desse vegetal para aumentar a área de absorção da umidade e elementos nutritivos (forma de resistência) apresenta uma expansão e brotamento extraordinárias. A planta obriga o trabalhador a persistir para combate-la. Isso não acontecia. Foram tomando conta dos terrenos (os japoneses) enjeitados por estarem invadidos pelo sapé. Com a introdução dessa ferramenta agrícola, em pouco tempo aprenderam como acabar com o sapé e obter maior rendimento nas colheitas.Outro ensinamento que o japonês nos proporcionou, foi de cultivar os brejos e baixadas com a drenagem aproveitando-se os terrenos de aluvião, isto é ; ricos em elementos fertilizantes arrastados pelas enxurradas nessas bacias que formam os córregos e rios. Depois, a época do algodão no município, 1.932 - 1.945 quando as melhores lavouras, mais bem tratadas e de maior rendimento eram de japoneses. Prova grande parte de rios maleitosos terem sido devassados por japoneses; São Lourenço, Porcos, Onça, Anhumas e Tietê. Entretanto o lavrador japonês apresentava um grave inconveniente. Para facilitar o trabalho das ferramentas não sobrava no terreno nenhuma árvore, nem toco, nem raizes. Desaparecia até lenha para uso doméstico. A colônia japonesa foi de relativa importância no município pelo número de seus elementos. Calculava-se em 1.940 em 2.000, inclusive seus descendentes. Os japoneses com seu espírito de disciplina acolhiam em cada bairro, a autoridade de um chefe. Os mais conhecidos; Sagueio, Takasio, Seissako, Kato, Mariaka, Taniguchi, Tusik, Kuiki e Ikeda. Há muito tempo, quando o povoado emergia da mataria em redor, aparecia em "tournê" de ciganos, certos homens e mulheres de fala incompreensível, talvez sérvios ou húngaros. Seus companheiros de vagabundagem eram animais amestrados, chimpanzés, orangotangos ou ursos do clima frio da Rússia. Sem mais aquela, num domingo, numa esquina qualquer, promoviam o ajuntamento de curiosos e basbaques, exibindo esses animais em números cômicos de saltos, cabriolas e bailados, ao compasso de pandeiros. Os animais vestiam roupas à caráter, com saiotes multicores e chapéuzinhos de penacho. Acabada a apresentação o próprio animal com seu chapéu, recebia dos assistentes níqueis em pagamento pelo trabalho. Eram esses, os saltimbancos, amestradores de bichos, precursores dos circos. Quando já mais crescida a vila, apresentaram-se os circos, divertimentos para a temporada de um mês. Eram armados no largo da Matriz, no lugar onde se localiza o Ginásio Estadual. O anuncio, a propaganda, eram feitos pelo palhaço que percorria as ruas montando as avessas de costas ao itinerário a seguir, num cavalo puxado por um menino. Número original por seus atores. Acompanhar o palhaço, constituía, momentos inesquecíveis para a molecada. Encenavam o mais sensacional número de representações circenses, pela espontaneidade e entusiasmo desses comparsas improvisados. Quem não se lembra do palhaço com seu acompanhamento de garotos anunciando o espetáculo? Aos primeiros pregões do palhaço sarapintado, nenhum moleque resistia. Deveria aproveitar a oportunidade. Abaixa o sol suspende a lua...E o côro infantil respondia: Olha o palhaço que está na rua! O palhaço em piruetas sobre o dorso do paciente cavalinho: Hoje tem goiabada? Tem sim senhor! Hoje tem marmelada? Tem sim senhor! As vezes o palhaço exigia maior rendimento do côro desafinado: "Mais alto, mais forte!" E o palhaço que é? É ladrão de muié! bando de garotos aumentava. Camisas "vendendo farinha", vozes argentinas, agradáveis de se ouvir, caprichavam aos berros, o côro já organizado. À noite antes de começar o espetáculo, a bandinha de música defronte ao circo atacava diversas peças de seu repertório. E com o estímulo do quentão o povo se divertia. Cinema era antigamente um importante melhoramento com que sonhava toda população dos lugares pequenos. A nossa primeira casa para exibição de fitas cinematográficas, foi construída por Pascoalino Figueira Verde, na Avenida Larga, esquina da rua do centro telefônico (atual Joaquim Martins Carvalho) em 1.919. Era moda então para todo cinema que se prezasse, ter uma orquestra, ou coisa parecida que tocava músicas mais ou menos de acordo com o enredo da fita (e não filme como se fala hoje). No começo era a banda de música local que preenchia essa exigência, não sem antes tocar alguns dobrados nas imediações do prédio na rua, para o devido chamarisco. Época do cinema mudo com aparelho projetor e iluminação a gás. A frequência destemperada, tudo muito difícil, não aguentou por muito tempo. Em 1.923 melhorado, sob a direção de Antonio Zanatta, recomeçou a funcionar esse mesmo cinema que se estabilizou com a vinda da luz elétrica em 1.925. Nesses períodos, tomaram parte como músicos da orquestra: Gustavo Saliceti (parente do Dr. Pascoalino) Violino; Joaquim Saldanha, Violão; (este deixou de tocar no cinema por ter sido nomeado sub-delegado, naturalmente, aquela função imcompátivel com a austeridade do cargo que tinha de exercer); Julio Gusmão, Antonio Bueno de Camargo Junior., Violão; Lourdes de Barros, cavaquinho; Alda Galvão, Violino; Catalino Moreira, etc... Em 1.927 melhorou muito com a contribuição dos violinistas, Orlando Soares de Araújo e Francisco Pécora (curso do Conservatório de São Paulo). Ambos eram professor e diretor respectivamente do grupo escolar. O cinema também servia para representações teatrais que tiveram sua época, pois em 1.931 foi levada a cena "A Ceia dos Cardeais" de Júlio Dantas; "Fabíola" e outras peças. Representações essas com bom desempenho artístico e grande entusiasmo da platéia porque era nosso. O cinema falado foi obra de Atílio Montanari, espírito empreendedor que construiu o prédio com melhoramentos adequados. O empresário José Gabriel Curi foi outro elemento de nosso progresso. A história de uma comunidade há de se considerar sob os diferentes aspectos políticos administrativos, sociais e econômicos. Portanto a religião católica, como em nosso caso em particular assinala fatos intimamente ligados a nossa evolução que, por isso, completa nossa história no seu todo geral. No século passado a paróquia de Araraquara abrangia grande extensão territorial, isto é, quase toda a zona da antiga Douradense e a Araraquarense. O Curato do Espírito Santo das Pedras, foi fundado em 1.871 e foi elevado em 1.898 à categoria de paróquia a qual posteriormente Fugidos passou a pertencer. A primeira construção religiosa aqui erguida foi um rancho de sapé no cemitério cercado de pau a pique, dentro do atual perímetro urbano onde foi rezada a 1ª missa pelo Padre João de Arruda, vigário de Ibitinga em 1.902. Em 1.903, depois de doado o terreno para o patrimônio e localizado o lugar para a elevação da futura capela de S. Sebastião, foi celebrada outra missa pelo Padre Antonio Chirinea coadjutor de Boa Vista das Pedras, com sede em Ibitinga A capela foi construída pelos moradores locais em mutirão, sob a direção de Joaquim Vieira, em 1.904. O sino adquirido foi colocado ao lado debaixo de um telheiro, simplesmente. Essa capela construída com paredes de barro (taipa), achava-se em precário estado de conservação, quando em 1.918, foi nomeada uma comissão encarregada de angariar donativos e administrar a reforma necessária, sob a orientação do Cônego Manoel Borges Pereira, de Itápolis, que atendia também a capela de Borborema. A comissão era integrada dos Srs. Pedro Passos, João Batista Leme, Pedro de Carvalho, Joaquim de Castro Pereira e Gabriel Maria da Veiga. Mas com os poucos recursos apurados, a reforma da capela se desenvolvia sem continuidade. Então essa comissão de homens foi substituída em 1.921 por outra de mulheres que conseguiu essa interminável reconstrução com paredes de tijolos, bem mais aumentada e uma pequena torre lateral para o sino. Terminou essa missão em 1.922. Essa eficaz comissão foi compostas das Sras. Henriqueta de O. Carvalho, Maria Amélia da Silva Leme, Barbara S. Bueno e Maria Jovita Leme de Freitas. Durante a estadia do Côn. Heriberto em Borborema foi edificada a capela de São José do Novo Brasil no bairro denominado Palmital, benzida e solenemente inaugurada em 07 de Março de 1.925. Entretanto o começo foi a benção do cruzeiro em 3 de Maio de 1.924, no local onde deveria ser levantada a capela. Essa data é considerada da fundação do patrimônio. Os terrenos entre o Ribeirão do Espírito Santo e o Córrego da Aparecida já no município de Novo Horizonte, eram de propriedade de José Feliciano Ferreira, conhecido por José Orestes. Foi ele o principal incentivador e doador dos terrenos para o patrimônio. Foram padrinhos no ato da benção: José Feliciano Ferreira, João Francisco do Prado (João Dionísio), Zeferino Rodrigues do Prado, José Correa do Prado, Antonio Zanetti e Eduardo Teixeira de Godoy. José Orestes, o fundador de Novo Brasil era um homem às direitas, de qualidade e caráter reto e digno. Pelo seu porte físico, estatura acima do normal e seus modos decididos eram bem o tipo de um paulista dos antigos. O terreno do patrimônio foi doado à Mitra Episcopal em 1.929. Nesse tempo o encarregado do curato de Borborema, vago com a saída do Pe. Heriberto, era o Pe. José Rafael Bovillon de Ibitinga. Ele mudou então o nome de Novo Brasil para Pio XI em honra a S.S. o Papa. Daí foi se firmando e progredindo todo o bairro, seja no aumento da população como também na produção agrícola. Nessa fase de transição, destaca-se como um elemento dos mais eficientes Ernesto Val, quem desenvolveu o comércio, ajudou a lavoura com financiamentos, estabeleceu comunicações e transporte do bairro com a sede e outros centros comerciais. Também outros antigos moradores, ali radicados contribuíram para o desenvolvimento do Pio: os Teixeira de Godoy, os Alves, os Andrades, os Prado, os Morais, os Antunes, os Cotrins, os Procópio além de Santiago Moranti e Francisco Médici. Novos agricultores, dentre eles, muitos japonêses, estabeleceram-se por lá. Aristides Saion, montou uma indústria de cerâmica na beira do Espírito Santo. Em 1.932 com a elevação a distrito policial a denominação passou a ser Vila Orestina em homenagem ao fundador. Isso foi por indicação do então Prefeito Municipal Dr. Calheiros. A antiga capela foi substituída por uma igreja, que pelas suas dimensões e linhas de construção atesta o grau religioso dos moradores do Pio. Agora o lugar é conhecido e designado por Pio e Vila Orestina. Período de alternativas porque o curato de Borborema ora estava sob o cuidado de padres das paróquias vizinhas, por falta de titular e efetivo, ora de outros padres, que por diferentes motivos, não permaneceram por muito tempo aqui. O Padre Bouillon de Ibitinga atendeu os católicos de Borborema de Dezembro de 1.925 a Dezembro de 1.933. Como a igreja já se tornasse pequena para a população em crescimento, foram planejadas novas construções; capelas para os altares laterais, uma fachada de maior projeção e duas torres para os sinos. Projeto do arquiteto Rosalbino Tucci de Ibitinga. Uma comissão dirigida pelo padre Bouillon se estabeleceu: Manoel Silveira Bueno, Dante Cordilhone, José Soares Brandão e Benjamin da Silva Leme. A inauguração solene da capela mor foi em setembro de 1.928, compareceram pessoas de destaque das cidades vizinhas. Usaram da palavra no largo da matriz, Dr. Teodolindo Castiglione de Ibitinga, Patrono da Matriz em construção e o Dr. Antonio Dándrea, de Itápolis. Outros altares foram armados e benzidos, e benzidas também as imagens doadas pelos religiosos locais. Em Setembro de 1.933, foi nomeado padre residente o cônego Arcangelo Gallo, italiano da "Bass Itália". De grande robustez, ficou conhecido pela liberalidade de linguagem, próprio dos napolitanos. Mais uma capela sob a inovação de Sto. Antonio, foi inaugurada em 13 de Outubro de 1.933, nos bairro das Três Barras, em terreno doado por Juvenal Vicentim. Na visita pastoral do bispo coadjutor D. Gastão Liberal Pinto, em Agosto de 1.935, houve extraordinário número de crisma (mais de 2.800) o maior até hoje, surpreendente pela proporção da população local. Pelo espaço de 20 dias, substituiu em Borborema o Padre Luiz Solineo. Em 1.935, foi nomeado o pároco padre Antonio Luiz Castanheira, já em idade avançada. Faleceu em princípio de 1.939 em Catanduva. Os limites da nova paróquia de São Sebastião de Borborema foram estipuladas por carta pastoral em 25 de Janeiro de 1.937, por D. Gastão Liberal Pinto. Com a morte do padre Castanheira, o seu substituto foi o padre Alvaro Gabinio. Aqui chegou em fins de Junho. Foi logo depois transferido para Matão, isto é, em Fevereiro de 1.940. A democracia como forma de governo nacional, tinha e ainda tem sua interpretação conforme o grau de cultura e conveniências locais. Em todo o interior predominava, depois dos coronéis, prepotentes e únicos, o chefe político que organizava uma "panela" de correligionários incondicionais. Manobrava as eleições, distribuindo, a sua vontade nos cargos públicos, prefeito, vereadores, delegado, professores. O sistema eleitoral consistia na eleição de 6 vereadores para o mandato de 3 anos que, por sua vez elegiam o prefeito, cada ano, podendo ser qualquer cidadão municipal. Mas o prefeito quase sempre saía da própria câmara, pois seus membros elegiam-se reciprocamente, revezando-se nos cargos administrativos. Em 1.925, quando Borborema passou a município a direção política pertencia a Manoel Silveira Bueno. A sede tinha 120 casas e 500 habitantes, o município ao todo teria 6.000. Os primeiros passos depois da emancipação política foram um tanto difíceis. Desmembrado do município de Itápolis tinha de se organizar por sua conta. A arrecadação dos impostos iam além dos 50 contos de réis. A primeira câmara de vereadores eleita era composta de; Pedro Carvalho de Andrade (presidente), José Laporta (vice), Pedro Claudino, Dr. Lauro Torres Resende, Dante Cordiglione e Flávio Simões, que tomou posse em 21 de Março de 1.926 O primeiro prefeito eleito foi Flávio Antonio Simões, para o período anual até 15 de Janeiro de 1.927. O novo município talvez necessitado para o pagamento de despesas urgentes, por intermédio de sua câmara fez um empréstimo de 120 contos de réis a juros de 1% ao mês, capitalizados semestralmente. Adquiridos de um capitalista de Amparo. Houve discussões e acirrados debates na Câmara a propósito desse empréstimo e por não concordarem com o mesmo demitiram-se ou foram eliminados os vereadores José Laporta e Pedro Claudino, substituídos pelos suplentes. Esse empréstimo que ficou oneroso ao município só foi resgatado integralmente em 1.936. No último ano do triênio, foi prefeito, pela primeira vez, Manoel Silveira Bueno. Nova eleição para a câmara de 1.929. Elegeram-se André Resende de Freitas (presidente), Paulo Pires (vice), Lindolfo Antonio de Souza, Flávio Antonio Simões, Manoel Silveira Bueno e João Bento dos Passos. Tornou a ser prefeito para 1.929, Flávio Antonio Simões. Em 1.930, na eleição de prefeito houve empate de votos entre André Resende de Freitas e João Bento dos Passos, sendo esse empossado por ter apresentado prova de ser mais idoso o que prevalecia nesse caso. João Bento dos Passos foi destituído do cargo pela revolução federal de Washington Luiz Pereira de Souza. Seguindo a regra geral do desbravamento dos sertões as estradas de ferro: Noroeste, Paulista, Araraquarense e Sorocabana procuraram na sua expansão as barrancas do Rio Paraná, limite de Mato Grosso. Nas estações de abastecimento, surgiram da noite para o dia vilas e cidades. Povoava-se o interior de são Paulo. A douradense retraiu-se desde 1.911 em Ibitinga. No seu setor a margem direita do Tietê, formavam-se núcleos de futuro promissor; Borborema, Novo Horizonte, Mundo Novo, atual José Bonifácio, Macauba que necessitavam de transporte ferroviário. Nicolau Pizzolante pleiteava esse melhoramento para Borborema, desde o tempo de Ciro Rezende superintendente da Douradense. Porém essa idéia só tomou forma concreta com a fundação da Cia de Estrada de Ferro Novo Horizonte, em 15 de Outubro de 1.929, aproveitando-se o espírito empreendedor do Dr. Calheiros, figura de proa efetuada a 1ª reunião em casa de Nicolau Pizzolante em que se decidiu a formação da Cia. Figuravam como elementos fundadores e componentes da 1ª diretoria; Dr. M.R. Calheiros, Nicolau Pizzolante, Antonio Martins de Carvalho, Hugo Lippi, Dr. Ciro Infant Morat, João Batista Leme, Orlando B. Soares de Araújo, Flávio Antonio Simões e outros. Somente no ano de 1.936 é que a Douradense prosseguiu seu ävançamento", construindo linhas na direção de NovoHorizonte. A construção (avançamento) prosseguia célere, tendo como telegrafista o sr. Nicomedes Seisdedos, em escritório montado em um vagão, onde trabalhava e pernoitava. Segundo ele, era constante ouvir-se às noites de lua miados fortes do lado de fora do vagão. Ao amanhecer deparava com enormes pegadas de onça. Havia muitos bichos selvagens no trecho. O capital inicial foi de 500 contos de réis em ações nominais de 200 mil réis e a sede, Borborema. Entretanto havia derrotistas que não acreditavam nesse empreendimento arrojado. A política na medida do possível procurava boicotar. Em Itápolis, o chefe político em contrapartida, trabalhou para o prolongamento do seu ramal até Novo Horizonte, passando entre Borborema e Itajobi, à distância de 3 léguas das duas cidades. Porém não deu certo. A Cia foi legalizada, Antonio Martins de Carvalho, representando-a como diretor tesoureiro obteve a concessão do governo estadual até Porto Tabuado, no Rio Paraná. Foi negociado para os primeiros trabalhos em empréstimo de 50 contos de réis com Evaristo Gonçalves de Oliveira, com aval de Antonio Martins de Carvalho. Os estudos preliminares, o levantamento do traçado, foram efetuados pelo engenheiro da Douradense , Dr. Musa. A construção do leito terraplanagens foram atacados pelo empreiteiro Romão Sendon, um dos entusiastas do plano. Os chamados de capital, isto é, os pagamentos para integralização das ações, não correspondiam às necessidades devido a degringolada do café. Processa-se a cooperação financeira da praça de Novo Horizonte. Em 1.933 foi transferida a sede da Cia para aquela cidade, ficando a diretoria assim constituída: Dr. Victor Garbarino (presidente), Comendador Gabriel Totti (vice), Coronel Jerônimo Machado (2º vice), Tertuliano Nogueira Cabral (1º tesoureiro), Antonio Martins de Carvalho (2º tesoureiro), Dr. Ubaldo Antunes de Oliveira (secretário) e Dr. Giro Infant Morat (diretor técnico). A Estrada de Ferro, tornou-se realidade quando seus engenheiros, entre eles o Dr. Cuba em pouco tempo terminavam a construção e começavam a correr os trens. Em Borborema inaugura-se no ano de 1.938 e Novo Horizonte em 1.939. Nesse ano de 1.938 veio para Borborema, como Chefe Auxiliar, o Sr. Nicomedes Seisdedos, que se casou em Ibitinga em 15 de junho daquele ano, vindo residir aqui com sua esposa, Dona Maria Prado Seisdedos, á rua Dr. Valentim Gentil. Esse grande empreendimento ferroviário surgiu e concretizou-se em Borborema. Foi conquista dos borboremenses. No ano de l.945 a Companhia Paulista de Estradas de Ferro compra a Companhia Estradas de Ferro do Dourado, conhecida "Douradense". São Paulo em 1.932, fez a revolução Constitucionalista contra o governo ditatorial de Getúlio Vargas, em conseqüência da revolução de 1.930. Apesar de o Partido Democrático Nacional ter aberto as portas de São Paulo, em Itararé, aos revolucionários do sul foi nosso Estado considerado Terra Conquistada. O governo federal em vez de nomear o governo paulista e civil, mandava interventores militares. Predominavam os tenentes chefiados por Oswaldo Aranha, adversário de São Paulo. O levante de 9 de Julho de 1.932 teve o apoio integral do povo paulista. Traído na última hora, somente com a ajuda do sul e do Mato Grosso arcou com as conseqüências a essa luta desigual. Como não podia deixar de acontecer Borborema declarou-se presente nessa chamada para o cumprimento do dever. Governavam o município por coincidência 2 nortistas; Dr. Calheiros, alagoano, prefeito municipal e Dr. Marcelo Chagas Aroucha, pernambucano, delegado de polícia. O prefeito nomeou uma comissão para receber donativos para a revolução; Dante Cordiglione, Manoel Silveira Bueno, Salim Buhian e José da Silva Corrêa. A Força Pública tinha recolhido aos quartéis os policiais de todas as cidades do interior. Os batalhões dessa gloriosa milícia eram destacados para diversas frentes de combate.

O brasão de Borborema foi concedido em 20 de Março de 1985. As setas representam São Sebastião, o santo padroeiro da cidade. As abelhas representam o trabalho e os esforços dos primeiros habitantes do local. Na base aparece uma "barra" ondeante, representando o Ribeirão dos Fugidos, rio que corta o perímetro urbano da cidade. O escudo é rodeado por ramificações de milho e laranja, as principais fontes de agricultura da região.